Nefrologia · Alterações Urinárias
Albuminúria: o que é, causas, exames e tratamento
Albuminúria é a presença de albumina, uma proteína do sangue, na urina. Em pequena quantidade ela passa despercebida, mas é o sinal mais precoce e sensível de que os filtros dos rins estão sob agressão — na maioria das vezes por diabetes ou hipertensão. Este guia explica o que a albuminúria significa, como é diagnosticada e como se trata.

Escrito/revisado por Dr. Ricardo L. Lafuente M., Nefrologista – CRM/RJ 52857521 | Atualizado em
O que é a albuminúria
A albumina é a principal proteína do sangue: ela ajuda a manter o líquido dentro dos vasos e a transportar hormônios, medicamentos e outras substâncias. Os rins filtram cerca de 180 litros de sangue por dia através dos glomérulos, pequenos filtros formados por vasos muito finos, e a barreira desses filtros normalmente impede que a albumina passe para a urina. Quando essa barreira é lesada ou fica mais permeável, a albumina começa a escapar. Esse escape é a albuminúria.
Ela é medida pela relação albumina/creatinina (RAC) em uma amostra de urina, em miligramas de albumina por grama de creatinina (mg/g). A classificação atual, adotada pelas diretrizes KDIGO, tem três faixas:
- A1 — menos de 30 mg/g: normal ou discretamente aumentada;
- A2 — de 30 a 300 mg/g: moderadamente aumentada (o que antes se chamava microalbuminúria);
- A3 — acima de 300 mg/g: gravemente aumentada (a antiga macroalbuminúria).
Mesmo na faixa A2, a albuminúria já indica maior risco de doença renal crônica e também de infarto e AVC. Por isso ela é avaliada junto com a taxa de filtração glomerular (TFG): as duas medidas, combinadas, dizem quanto risco o paciente corre. Albuminúria acima de 30 mg/g que persiste por mais de três meses já define doença renal crônica, mesmo com a filtração normal. A albuminúria é a parte mais sensível da proteinúria: quando a perda de proteínas é maior, o exame de urina de rotina também detecta.
Causas e fatores de risco
A albuminúria reflete lesão ou sobrecarga dos glomérulos. As duas causas mais frequentes são o diabetes mellitus e a hipertensão arterial de longa data, que levam à nefropatia diabética e à nefropatia hipertensiva. Outras situações que aumentam o risco:
- obesidade e síndrome metabólica;
- tabagismo;
- doenças glomerulares, como a nefropatia por IgA e a GESF;
- doenças autoimunes, principalmente o lúpus, que pode causar nefrite lúpica;
- doença cardiovascular e insuficiência cardíaca;
- uso frequente ou prolongado de anti-inflamatórios;
- idade avançada e histórico familiar de doença renal.
Nem toda albuminúria significa doença renal crônica. Ela pode aparecer de forma transitória depois de exercício físico intenso nas últimas 24 horas, febre, infecção urinária, desidratação, menstruação, descompensação importante do diabetes ou da pressão, e insuficiência cardíaca descompensada. Por isso o resultado precisa ser confirmado antes de qualquer conclusão.
Sintomas da albuminúria
Na grande maioria dos casos a albuminúria não causa sintoma algum. É justamente por isso que ela costuma ser descoberta em exames de rotina — e é a razão de o exame ser recomendado a quem tem diabetes ou hipertensão mesmo sem queixas.
Quando a perda de albumina é grande (fase A3, sobretudo nas doenças glomerulares), podem surgir sinais como:
- urina espumosa de forma persistente, por vários dias;
- inchaço nos pés, tornozelos e pernas ou ao redor dos olhos (edema);
- ganho rápido de peso por retenção de líquidos;
- cansaço.
Espuma ocasional na urina, sem inchaço ou outros sinais, não indica doença por si só: ela pode depender da força do jato e da concentração da urina.
Quando procurar o médico
Procure um médico — de preferência um nefrologista — se:
- o exame de urina ou a relação albumina/creatinina veio alterado, mesmo que de forma leve;
- você tem diabetes ou hipertensão e não faz o exame de albuminúria pelo menos uma vez por ano;
- notou urina espumosa por vários dias ou inchaço que não desaparece;
- tem histórico familiar de doença renal, obesidade, doença cardiovascular ou usa anti-inflamatórios com frequência.
Procure atendimento com urgência se houver inchaço súbito e importante, redução muito grande do volume de urina, falta de ar ou pressão muito elevada com dor de cabeça intensa.
Como é feito o diagnóstico (exames)
O exame padrão é a relação albumina/creatinina em uma amostra isolada de urina, de preferência a primeira da manhã. Não é preciso jejum nem, na maioria dos casos, a coleta de urina de 24 horas. O exame de urina de rotina (EAS, ou urina tipo I) detecta apenas quantidades maiores de proteína e pode não identificar a faixa A2; por isso não substitui a RAC.
Para o resultado ser confiável, evite exercício físico intenso nas 24 horas anteriores, não colete a urina durante febre, infecção urinária ou menstruação e mantenha a hidratação habitual. Como a albuminúria varia de um dia para o outro, o diagnóstico exige confirmação: em geral, pelo menos duas de três amostras alteradas em um intervalo de três a seis meses.
O nefrologista costuma completar a avaliação com creatinina e taxa de filtração glomerular estimada, glicemia e hemoglobina glicada, perfil de colesterol e ultrassom de rins e vias urinárias. Quando a albuminúria é muito alta, aparece junto com sangue na urina (hematúria) ou não se explica por diabetes e hipertensão, podem ser pedidos exames para doenças glomerulares — como FAN, complemento, sorologias e, em casos selecionados, biópsia renal.
Tratamento
O tratamento tem dois objetivos: reduzir a albuminúria e proteger os rins e o coração a longo prazo. Ele é individualizado e definido pelo médico, mas costuma reunir as medidas abaixo.
- Controle da pressão arterial, com metas definidas pelo médico para cada paciente.
- Controle da glicemia no diabetes, com a hemoglobina glicada dentro da meta individual.
- Bloqueio do sistema renina-angiotensina: inibidores da ECA ou bloqueadores do receptor de angiotensina (BRA) são a base do tratamento quando há albuminúria associada a diabetes ou hipertensão. Exigem acompanhamento da creatinina e do potássio.
- Inibidores de SGLT2: indicados em muitos pacientes com doença renal crônica, com ou sem diabetes, porque reduzem a albuminúria e o risco de progressão da doença renal.
- Em diabetes tipo 2 com albuminúria persistente apesar do tratamento, o médico pode considerar a finerenona e os agonistas de GLP-1.
- Redução do sal (menos de 5 g por dia, o que equivale a cerca de 2 g de sódio), atividade física regular, controle do peso e abandono do tabagismo.
- Evitar anti-inflamatórios sem orientação médica e ajustar medicamentos que dependem da função dos rins.
Cada um desses medicamentos tem indicações, cuidados e possíveis efeitos adversos, e nunca deve ser iniciado ou suspenso por conta própria. O acompanhamento inclui repetir a relação albumina/creatinina, a creatinina e o potássio algumas vezes por ano, com frequência definida pelo nefrologista conforme o risco.
Prognóstico
A albuminúria é um marcador de risco, e não uma sentença. Na fase inicial (A2), quando identificada e tratada, é frequentemente possível reduzi-la, e a redução da albuminúria está associada a menor risco de perda de função renal e de eventos cardiovasculares. Sem tratamento, ela tende a aumentar com o tempo e a se acompanhar de queda da filtração glomerular.
O prognóstico depende da causa, do grau da albuminúria, da função renal no momento do diagnóstico e do controle da pressão arterial e da glicose. Quanto mais cedo o problema for reconhecido, maiores as chances de proteger os rins — e é por isso que o rastreamento anual de quem tem diabetes ou hipertensão é tão valorizado.
Perguntas frequentes sobre albuminúria
Qual a diferença entre albuminúria e proteinúria?
A albumina é um tipo específico de proteína, e sua dosagem isolada é a forma mais sensível de detectar lesão renal em fase inicial. A proteinúria mede o total de proteínas na urina e costuma estar alterada em estágios mais avançados, quando a perda é maior.
Albuminúria e microalbuminúria são a mesma coisa?
A microalbuminúria é o nome antigo da albuminúria moderadamente aumentada (30 a 300 mg/g, categoria A2). As diretrizes atuais preferem falar em categorias de albuminúria (A1, A2 e A3), porque a perda de albumina é contínua e o risco cresce em todas as faixas.
Preciso de jejum ou de coleta de urina de 24 horas?
Não. O exame mais usado é a relação albumina/creatinina em uma amostra isolada de urina, de preferência a primeira da manhã. Não coletar durante febre, infecção urinária ou menstruação, e evitar exercício intenso no dia anterior.
Com que frequência devo fazer o exame?
Quem tem diabetes tipo 2 deve fazer no diagnóstico e depois anualmente; no tipo 1, a partir de cerca de cinco anos de diagnóstico, também uma vez por ano. Hipertensos devem fazer ao menos uma vez por ano. Se o resultado estiver alterado, o médico define um intervalo menor.
Urina espumosa sempre indica albuminúria?
Não. Fluxo urinário rápido, urina concentrada ou resíduos de produtos de limpeza podem causar espuma passageira. Espuma fina, abundante e persistente por vários dias, principalmente com inchaço, merece investigação com exame de urina.
A albuminúria tem cura?
Depende da causa. Quando é transitória, como após febre ou exercício intenso, desaparece sozinha. Quando decorre de diabetes ou hipertensão, o objetivo do tratamento é reduzir a albuminúria e retardar a progressão da doença renal, o que é possível em muitos pacientes quando o problema é identificado cedo.
Quem trata a albuminúria: clínico, endocrinologista ou nefrologista?
O primeiro passo costuma ser dado pelo clínico ou pelo endocrinologista, que controlam o diabetes e a pressão. O nefrologista entra quando a albuminúria é persistente, elevada (A3), vem com queda da filtração glomerular ou não tem causa clara.
Referências
- KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney International. 2024;105(4S):S117–S314. kdigo.org/guidelines/ckd-evaluation-and-management/
- KDIGO 2022 Clinical Practice Guideline for Diabetes Management in Chronic Kidney Disease. Kidney International. 2022;102(5S):S1–S127. kdigo.org/guidelines/diabetes-ckd/
- KDIGO 2021 Clinical Practice Guideline for the Management of Blood Pressure in Chronic Kidney Disease. Kidney International. 2021;99(3S):S1–S87. kdigo.org/guidelines/blood-pressure-in-ckd/
- Ministério da Saúde. Diretrizes Clínicas para o Cuidado ao Paciente com Doença Renal Crônica (DRC) no Sistema Único de Saúde. Brasília: 2014.
- Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) — informações ao paciente e diretrizes. sbn.org.br
- Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretrizes da SBD — rastreamento e manejo da doença renal do diabetes. diretriz.diabetes.org.br/
Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e o tratamento devem ser definidos por um médico após avaliação individual.
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