Reumatologia · Doenças Autoimunes Sistêmicas

Doença indiferenciada do tecido conjuntivo (DITC)

A doença indiferenciada do tecido conjuntivo (DITC) é o nome dado a quadros em que há sintomas e anticorpos característicos de uma doença autoimune sistêmica, mas que ainda não preenchem os critérios de nenhuma doença definida, como o lúpus ou a síndrome de Sjögren. Na maioria das pessoas é uma condição de curso brando, que exige acompanhamento regular e não deve ser motivo de pânico.

Dra. Maria Verônica Lopez Gutierrez, Reumatologista

Escrito/revisado por Dra. Maria Verônica Lopez Gutierrez, ReumatologistaCRM/RJ 52857513 | Atualizado em

O que é a doença indiferenciada do tecido conjuntivo

O tecido conjuntivo sustenta e conecta os órgãos do corpo — pele, articulações, vasos, músculos. As doenças do tecido conjuntivo, também chamadas de colagenoses, são doenças autoimunes em que o sistema de defesa ataca esses tecidos. As mais conhecidas são o lúpus eritematoso sistêmico, a síndrome de Sjögren, a esclerodermia, a dermatomiosite e a doença mista do tecido conjuntivo. Cada uma tem critérios de classificação próprios.

Na DITC, a pessoa apresenta manifestações que sugerem uma dessas doenças — como dor articular, cansaço, sensibilidade ao sol, fenômeno de Raynaud ou olhos e boca secos — e tem autoanticorpos no sangue, em especial o FAN (fator antinuclear), mas o conjunto de sinais não é suficiente para nenhum diagnóstico específico. Por isso o nome: a doença ainda não se "diferenciou". Em geral se fala em DITC depois de um período de observação de pelo menos um ano.

Isso não significa que nada esteja errado, nem que a doença seja "pouco importante". Significa que o quadro precisa ser acompanhado, porque pode evoluir, ficar estável ou até desaparecer. Em inglês, a condição é chamada de UCTD (undifferentiated connective tissue disease).

Causas e fatores de risco

A causa exata não é conhecida. Como nas demais doenças autoimunes, acredita-se que combine predisposição genética com fatores ambientais, entre eles a exposição à luz ultravioleta, algumas infecções virais, o tabagismo, certos medicamentos e alterações hormonais.

A DITC é mais comum em mulheres, geralmente entre os 20 e os 50 anos, e ter parentes com doença autoimune aumenta um pouco a chance de desenvolvê-la. Não é contagiosa e não é causada por estresse ou por uma alimentação específica.

Sintomas da DITC

Os sintomas costumam ser leves a moderados e variam muito de pessoa para pessoa. Os mais frequentes são:

  • dor e, às vezes, inchaço nas articulações, sobretudo das mãos, sem deformidades;
  • cansaço persistente;
  • manchas ou vermelhidão na pele e piora com a exposição ao sol (fotossensibilidade);
  • dedos que ficam brancos, roxos e vermelhos no frio (fenômeno de Raynaud);
  • olhos e boca secos;
  • feridas na boca e queda de cabelo;
  • febre baixa ocasional e alterações discretas no hemograma, como diminuição dos leucócitos.

O comprometimento grave de órgãos, como rins, pulmões e sistema nervoso, é incomum na DITC. Quando aparece, costuma indicar que a doença evoluiu para uma forma definida — como no lúpus, que pode causar nefrite lúpica — e exige avaliação imediata.

Quando procurar o médico

Procure um reumatologista se tiver FAN positivo acompanhado de sintomas, dor ou inchaço nas articulações por mais de seis semanas, manchas na pele que pioram com o sol, fenômeno de Raynaud novo ou olhos e boca secos por mais de três meses. Mulheres com FAN ou anti-Ro/SSA positivos que desejam engravidar também devem ser avaliadas antes da gestação.

Busque atendimento sem demora se surgirem urina espumosa ou com sangue, inchaço, falta de ar, dor no peito, fraqueza muscular importante, feridas nos dedos ou febre alta persistente: são sinais que pedem avaliação rápida.

Como é feito o diagnóstico (exames)

O diagnóstico é clínico e se baseia na história, no exame físico e nos exames de laboratório, depois de afastadas outras causas de sintomas parecidos. O primeiro exame é o FAN, feito por imunofluorescência em células HEp-2, que informa o título (por exemplo, 1:160) e o padrão de coloração. É importante saber que o FAN positivo isolado não é doença: uma parcela das pessoas saudáveis, principalmente mulheres e idosos, tem FAN positivo em títulos baixos.

Quando o FAN é positivo e há sintomas, o reumatologista costuma pedir anticorpos mais específicos, como anti-Ro/SSA, anti-La/SSB, anti-Sm, anti-RNP e anti-DNA nativo, além de complemento (C3 e C4), hemograma, função renal, exame de urina e provas inflamatórias (VHS e PCR). Os anticorpos antifosfolípides são investigados em mulheres com perdas gestacionais ou histórico de trombose. Na DITC, o resultado não preenche os critérios de doenças como o lúpus (critérios EULAR/ACR de 2019) ou a síndrome de Sjögren.

Outras condições podem simular a DITC e precisam ser afastadas: infecções, doenças da tireoide, fibromialgia, efeitos de medicamentos e outras doenças reumáticas, como as artrites indiferenciadas. O acompanhamento periódico, com repetição do exame clínico e dos exames, é parte do diagnóstico.

Tratamento

Não existe um tratamento único para a DITC. A conduta é individualizada, orientada pelos sintomas e pelo risco de evolução, e o objetivo é controlar as queixas, prevenir complicações e detectar cedo qualquer mudança. As medidas mais usadas incluem:

  • hidroxicloroquina, indicada em muitos pacientes para dor articular, alterações de pele e cansaço, com avaliação oftalmológica periódica;
  • anti-inflamatórios por curto período para dor articular, com cautela, pois podem afetar os rins e o estômago;
  • corticoide em dose baixa e por tempo limitado, em períodos de maior atividade;
  • imunossupressores, como o metotrexato, em casos selecionados com artrite persistente;
  • proteção solar rigorosa, com protetor de amplo espectro e roupas adequadas;
  • proteção contra o frio e, quando necessário, medicamentos para o fenômeno de Raynaud;
  • abandono do tabagismo, atividade física regular e vacinação em dia.

A gestação merece atenção especial. Em geral é possível engravidar com a doença estável, mas deve ser planejada com o reumatologista e o obstetra. Mulheres com anticorpo anti-Ro/SSA têm risco pequeno de o bebê desenvolver lúpus neonatal ou bloqueio cardíaco congênito e são acompanhadas com ecocardiograma fetal. Alguns medicamentos precisam ser ajustados antes da gravidez. As consultas de acompanhamento costumam ser frequentes nos primeiros anos (a cada três a seis meses), com exames de sangue e de urina.

Prognóstico

O prognóstico da DITC é, em geral, bom. Em séries clínicas publicadas, aproximadamente um terço dos pacientes evolui para uma doença definida — na maioria das vezes lúpus, síndrome de Sjögren ou artrite reumatoide —, principalmente nos primeiros anos de acompanhamento; cerca de um terço melhora ou entra em remissão; e o restante permanece com um quadro estável e de baixa gravidade, sem nunca se diferenciar.

O risco de evolução é maior no início, e por isso o seguimento regular é mais frequente nos primeiros anos. Sinais que chamam a atenção do reumatologista são o aparecimento de anti-DNA nativo ou anti-Sm, o aumento do título do FAN e novas manifestações, como comprometimento de rins ou de pele. Mesmo quando o quadro se define, o diagnóstico precoce permite tratar antes de haver danos. Com acompanhamento adequado, a maioria dos pacientes mantém boa qualidade de vida, embora o cansaço possa persistir por algum tempo.

Perguntas frequentes sobre doença indiferenciada do tecido conjuntivo

DITC é a mesma coisa que lúpus?

Não. Na DITC há sinais e anticorpos que sugerem doença autoimune, mas os critérios de lúpus ou de outra doença específica não são preenchidos. Uma parte dos pacientes evolui para lúpus ao longo dos anos, outra parte não.

FAN positivo significa que tenho uma doença autoimune?

Não necessariamente. O FAN positivo, principalmente em títulos baixos, é comum em pessoas saudáveis. Ele só tem valor quando associado a sintomas e a outros exames, e a interpretação cabe ao reumatologista.

A DITC tem cura?

Não há cura definida para a doença autoimune, mas o quadro costuma ser leve e controlável. Uma parte dos pacientes melhora ou entra em remissão, e a maioria mantém boa qualidade de vida com o acompanhamento correto.

Preciso tomar medicamentos para sempre?

Nem sempre. Muitos pacientes só precisam de acompanhamento e de tratamento dos sintomas em períodos de piora. Quando há indicação de hidroxicloroquina ou outros medicamentos, a duração é definida pelo reumatologista.

Posso engravidar se tenho DITC?

Em geral sim, com a doença estável e planejamento prévio. A gestação deve ser acompanhada pelo reumatologista e pelo obstetra, sobretudo quando há anticorpo anti-Ro/SSA ou antifosfolípides, e alguns medicamentos precisam ser ajustados antes.

A DITC é hereditária?

Não é herdada diretamente, mas ter parentes com doenças autoimunes aumenta um pouco o risco. A maioria das pessoas com DITC não tem casos na família.

Preciso evitar o sol?

A luz solar pode desencadear sintomas em quem tem sensibilidade. Use protetor solar de amplo espectro, reaplique ao longo do dia, use chapéu e roupas de proteção e evite os horários de maior radiação.

Qual a diferença entre DITC e fibromialgia?

A fibromialgia causa dor difusa e cansaço sem inflamação nem autoanticorpos característicos; a DITC tem base autoimune, com FAN positivo e possíveis alterações na pele, nas articulações e no sangue. As duas podem coexistir, e a diferenciação é feita pelo reumatologista.

Referências

  1. Mosca M, Neri R, Bombardieri S. Undifferentiated connective tissue diseases (UCTD): a review of the literature and a proposal for preliminary classification criteria. Clin Exp Rheumatol. 1999;17(5):615–620.
  2. Mosca M, Tani C, Vagnani S, Carli L, Bombardieri S. The diagnosis and classification of undifferentiated connective tissue diseases. J Autoimmun. 2014;48–49:50–52.
  3. Aringer M, Costenbader K, Daikh D, et al. 2019 European League Against Rheumatism/American College of Rheumatology Classification Criteria for Systemic Lupus Erythematosus. Arthritis Rheumatol. 2019;71(9):1400–1412.
  4. Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) — cartilhas e informações ao paciente. reumatologia.org.br

Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e o tratamento devem ser definidos por um médico após avaliação individual.

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